Estudo analisa fatores em alto índice de suicídio entre veterinários

Estresse de trabalho, acesso a drogas e perspectivas sobre a morte – tudo isto contribui
Por Rachael Whitcomb, DVM360

SOUTHAMPTON, Reino Unido — Eutanásia e opiniões sobre humanidade e dar fim à vida podem ser um fator em altas taxas de suicídios de veterinários no Reino Unido, um estudo sugere.

“Esta perspectiva alterada para com a morte pode facilitar justificativas e reduzir inibições perante a percepção do suicídio como solução para seus próprios problemas”, escreve David Bartram, em um novo estudo sobre suicídio entre médicos veterinários.

Os estudos revelam que 93 por cento dos profissionais na área de saúde veterinária estão predispostos a favorecer a eutanásia de seres humanos, e médicos veterinários batalham entre o desejo de preservar a vida e a possibilidade de interromper o sofrimento.

Há dois anos, Bartram revelou que médicos veterinários possuem quatro vezes mais chances do que a população geral, e o dobro de chances de outros profissionais da área de saúde de cometerem suicídio. Seu novo estudo oferece algumas pistas sobre esta tendência. O estudo inicial em 2008 serviu de alicerce para esta continuação pelos mesmos autores, Bartram  e D.S. Baldwin. O estudo, entitulado “Cirugiões veterinários e o suicídio: uma revisão estruturada das possíveis influências no risco elevado”, foi conduzido na Escola de Medicina da Universidade de Southampton, e publicada no mês de fevereiro de 2010 na publicação Veterinary Record.

O número de suicídios entre veterinários não é alto, mas proporcionalmente, a profissão veterinária possui um alto índice comparado a outros profissionais de saúde, de acordo com o estudo. E os números não irão diminuir: do início dos anos 1950 até 1975, as taxas de suicídio entre veterinários homens no Reino Unido dobraram. A porcentagem de veterinários que terminam suas vidas é “consistentemente entre as mais altas de todas as profissões”, relata Bartram. Mulheres na profissão e clínicos de pequenos animais também parecem escolher o suicídio de maneira mais frequente do que seus colegas na população geral, o estudo nota. Ademais, um estudo da Califórnia citado por Bartram confirma estes resultados, destacando que veterinários homens e mulheres possuíam taxas de mortalidade mais altas – 2,5 vezes e 5,9 vezes, respectivamente – do que a população geral. A taxa era maior para veterinários que estavam na profissão há menos de 30 anos.

Veterinários mais comumente utilizam auto-envenenamento como método de suicídio, com barbitúricos como método de escolha. O auto-enveneamento deliberado é responsável por 76 e 89 por cento dos suicídios em veterinários homens e mulheres, respectivamente, comparado a taxas de 20 por cento (homens) e 46 por cento (mulheres) na população geral. Acesso a meios letais foi um comprovado fator contribuinte às taxas de suicídio em numerosos estudos, de acordo com Bartram, e tanto médicos humanos como veterinários mais frequentemente comentem suicídio através do auto-envenamento, devido ao seu pronto acesso e conhecimento de drogas medicinais. Veterinários, no entanto, recebem menos supervisão no seu uso de drogas medicinais do que médicos humanos, conclui Bartram.

O segundo método mais comum de suicídio entre veterinários é o uso de armas de fogo, que foi responsável por 15 por cento dos suicídios entre veterinários, comparado a 5 por cento dos suicídios da população geral. Bartram atribui esta tendência ao pronto acesso a armas de fogo por clínicos e cirurgiões de equinos e animais de grande porte.

Traços da personalidade também podem ser um fator, e veterinários, como médicos humanos, tendem a abrigar características de imaturidade emocional que podem germinar pensamentos suicidas. Realizadores de alto desempenho acadêmico em um amplo espectro de profissões estão incluídos neste grupo, pela tendência de serem vítimas do “perfeccionismo socialmente prescrito” com altos níveis de competição entre colegas, medo do fracasso e ansiedade, diz Bartram.

Os critérios de admissão em faculdades veterinárias, que focam em encontrar os candidatos mais brilhantes e dedicados, tendem a atrair estes tipos de personalidade por selecionarem estudantes com alto desempenho acadêmico e imaturidade emocional proporcional. Investir na maturidade emocional em faculdades veterinárias poderia auxiliar melhor os estudantes a lidar com clientes em suas futuras carreiras, bem como agir como tampão contra estresse relacionado a trabalho, segundo Bartram.

Veterinários trabalham com pouca supervisão e podem errar diversas vezes no início de suas carreiras, escreve Bartram. Estes erros podem ter “impacto emocional considerável e podem ser significantes no desenvolvimento de pensamentos suicidas.” Acrescente a isto longas jornadas de trabalho, a ameaça de reclamações de clientes e litígio, desafios éticos, e parece ser óbvio por que tantos na profissão veterinária lutam contra a depressão e pensamentos suicidas. Longas jornadas são um desafio em especial, como um estudo de veterinários alemães revelou que aqueles que trabalham mais do que 48 horas por semana relatavam maiores níveis de estresse e um índice maior de acidentes de trânsito. Lidar com clientes durante estas longas jornadas é um fardo por si só, declara Bartram, citando um estudo que mostrava que a taxa de suicídio é 1,5 vezes maior para pessoas em ocupações dependentes de clientes, sendo a dependência de clientes uma fonte principal de estresse relacionado a trabalho.

Outro fator relacionado às longas jornadas de trabalho dos veterinários é a falta de equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, e o custo disto para a saúde emocional. Esta tendência é vista mais frequentemente em mulheres veterinárias, de acordo com o estudo, o que pode explicar a maior taxa de suicídios entre mulheres veterinárias. Estas também relatam maiores níveis de empatia emocional com animais, maior preocupação pelo bem-estar e direitos dos animais, e maior ênfase no elo pessoa-animal, de acordo com Bartram. Estes fatores podem tornar a eutanásia e tratamentos que fracassaram ainda mais difíceis de se lidar para mulheres veterinárias, ele diz.

Agora que foi estabelecido que veterinários possuem maior risco de suicídio do que outras profissões, Bartram diz que é hora de se focar na prevenção. Fatores predisponentes envolvidos no suicídio podem ser identificados em diversas fases da carreira de um veterinário, e avaliações aperfeiçoadas podem ser usadas no processo de admissão de faculdades veterinárias para auxiliar a intervir em indivíduos que podem ter dificuldades em lidar com as pressões de sua carreira escolhida, segundo Bartram.

O estudo completo pode ser encontrado na edição de março de 2010 da Veterinary Record.

Traduzido e adaptado de DVM 360.

Embora este estudo tenha sido realizado no Reino Unido, não é muito difícil aplicar tais dificuldades da profissão no Brasil. A principal relação deste estudo com o marketing é qualidade de vida: lidar com clientes em um ambiente de alta pressão, por longos períodos de tempo é certamente algo que deve ser repensado por todos, sejam donos de clínica ou clínicos gerais.

O marketing busca valorizar o profissional de medicina veterinária no contexto onde está inserido. Longas jornadas de trabalho, baixa remuneração, baixa valorização do profissional pela população – todos são fatores que influem drasticamente na qualidade de vida do médico veterinário.

Reflita sobre isto. Valorize a sua profissão!

Animal Marketing

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2 Responses to Estudo analisa fatores em alto índice de suicídio entre veterinários

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  2. Viv says:

    Além disso, buscar por ajuda de profissionais para lidar com frustrações, pressões e angústias. O/A veterinário/a deve compreender também que não está sozinho e quem nem deve entender todo esse poder de “decisão” sobre a vida de outro ser como um poder soberano e portanto estes são invencíveis ou inatingíveis, que podem lidar com tudo sozinhos. Existe equipe profissional capacitada e habilitada para ajudar na prevenção de tais problemas. PROCURE AJUDA!! Existem grupos de apoio, psicólogos e psiquiatras. Achei que o site foi um pouco insensível em tratar o assunto somente como uma questão de valorização da profissão. Sugiro que o site edite a reportagem, na parte onde coloca sua opinião sobre a valorização da profissão, e inclua também informação sobre prevenção ao suicídios, como disse o último parágrafo da reportagem sobre o estudo. Não é só buscar por melhores condições de trabalho, mas também de vida! Preze pelo bem estar dos seus colegas de profissão, e seres humanos e incentive a busca por ajuda, por favor!

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