“Você vai deixar meu cachorro morrer?”

Traduzi esse texto por acreditar que ele servirá de consolo para muitos médicos veterinários brasileiros, que encaram o calote e a “culpa” de não tratar um animal gratuitamente diariamente. Embora o texto tenha um ponto de vista norte-americano, é sempre interessante desmistificar a aura de “supervalorização” que o médico veterinário tem em países de primeiro mundo.
– Shand Lenim, diretor do blog Animal Marketing

Hoje minha sócia consultou um animal que estava em péssima forma: dor no abdomen, letárgico, incapaz de urinar ou defecar, e de modo geral não muito bem. Ela encontrou um volume firme no abdomen, e o cão aparentemente tinha comido parte de um osso de bife. Entretanto, esse volume era maior do que o tamanho de um osso, então ela sabia que estava acontecendo algo mais. Por ser uma ótima médica, ela obviamente desenhou um plano de tratamento que começava a partir de radiografias.

Como é comum de acontecer, os clientes disseram que não poderiam arcar com despesas, e que na verdade chegaram em nossa clínica porque não tinham $100 para entrar em uma emergência. Demos as informação necessárias para o CareCredit (sistema de plano de saúde particular nos EUA), e os clientes foram recusados. A médica já não tinha muitas opções nesse instante, o que comunicou aos clientes. A resposta deles?

“E aí, você vai deixar o meu cachorro morrer assim?” seguida por “que tipo de veterinário não aceita parcelamento?”

Sério?

E essa não é a primeira vez que presenciei esse tipo de atitude e comentário. Muitos clientes pensam que é nossa obrigação tratar animais e fazer cirurgias, mesmo se o cliente não tiver como pagar. Afinal, se realmente amássemos animais seguiríamos em frente e faríamos qualquer coisa (outro comentário que já ouvi antes). Se o cliente não pode pagar e nos negamos a tratar de graça, de alguma forma somos nós que estamos deixando o animal morrer, e não o cliente. É nossa culpa se não cedermos centenas ou milhares de dólares em serviços, mas não é culpa dos clientes quando eles não possuam economias em uma poupança ou quando estão com o nome tão sujo na praça que não podem assumir um parcelamento.

Acredito que muitas pessoas não percebem que não podemos fazer funcionar uma clínica veterinária sem cobrar. Há tantas coisinhas que as pessoas nunca refletem…folha de pagamentos, aluguel, equipamentos, seguros, impostos, indenizações trabalhistas, e dezenas de outras que rapidamente se acumulam e levam o lucro embora. Nós como veterinários temos nossas próprias contas, empréstimos e outras dívidas, assim como famílias para sustentar. E a maioria dos veterinários não dirige uma BMW ou um Lexus, morando em casas de 1000m². Se prestarmos demais esses serviços gratuitos, não podemos pagar nossas contas. Se acumularmos contas, precisamos demitir funcionários, cortar serviços e eventualmente vamos falir. Na verdade, essa prática de descontos é a razão número um da falência de clínicas veterinárias, e é muito mais comum do que qualquer um fora da profissão imagina.

Também não é sensato para a maioria dos veterinários criar o seu próprio sistema de crédito. Já vi isto sendo feito, e na maioria das vezes os clientes não pagam apropriadamente. Consultores de clínicas rotineiramente dizem que isto é uma má idéia para veterinários. E, se alguém não tiver dinheiro para cartões de créditos ou CareCredit, isso significa que a sua renda e habilidade de pagar dívidas está abaixo de padrões aceitáveis. Em outras palavras, são de alto risco. Então por que o veterinário deveria arcar com esses riscos? Sei que todos dizem “oh, não se preocupe, eu sempre pago em dia”. Pode me chamar de cínico, mas na minha própria experiência isso é raro. Por isso que a maioria dos veterinários não aceita esses pagamentos, especialmente de clientes em primeira consulta (que era o caso desse cão).

Então o que acontece nesses casos? Infelizmente, o animal sofre. Mas quem é responsável pelo cuidado com o animal? É o proprietário, e não o veterinário. O veterinário é o agente de tratamento, mas podemos apenas fazer recomendações. É o cliente que em última análise concorda com o tratamento, e o cliente é também em última análise o responsável pelo bem-estar do animal. Se o cliente não pode pagar, simplesmente não é culpa ou responsabilidade do veterinário. E a maioria de nós aprendeu a não deixar o cliente nos fazer sentir culpa, a ponto de nos induzir a tratar mesmo assim.

Nesse caso os clientes tinham dinheiro suficiente para a eutanásia, que foi a melhor decisão se eles não podiam arcar com nenhum diagnóstico ou tratamento. O cão não precisava sofrer por tanto tempo.

É tudo responsabilidade individual, gente. Algo que penso que a maior parte da sociedade americana esqueceu. Muitas pessoas querem culpar outras por seus fracassos e situações difíceis, quando na grande maioria das vezes a culpa é apenas dessas pessoas. Elas precisam assumir responsabilidade por suas ações, e pelo cuidado a pessoas e animais confiados a elas.
– Postado por Chris Bern, DVM

Traduzido e adaptado de A Vet’s Guide to Life.

Animal Marketing

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Animal Marketing é uma central de informações, eventos e recursos sobre gestão e marketing no Mercado Pet, e mais especificamente, na Clínica Veterinária de Animais de Companhia no Brasil. Entre em contato conosco! animal.mkt@gmail.com

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